Há uma história da minha avó, mãe do fundador da nossa empresa, que ilustra bem o ponto deste artigo. Há cerca de dois anos, ela veio visitar nossa fábrica e, enquanto caminhava entre os operários e as máquinas, encontrou um parafuso sobre uma bancada. Pegou o parafuso, guardou-o e continuou andando. Alguns minutos depois, encontrou outro. Então se virou para meu irmão e disse: “Meu filho, guarde esses parafusos. Porque de parafuso em parafuso se faz uma caçamba.”
Esse é o grande drama do desperdício. Não apenas na indústria, mas em praticamente todos os setores da economia. Quase nunca ele acontece de uma vez. Acontece aos poucos. De peça em peça. De caixa em caixa. De carga em carga. De gota em gota, perdemos um oceano.
E quando isso acontece, não é apenas o patrimônio das empresas que é afetado. A eficiência diminui, os custos aumentam e, no fim da cadeia, quem também paga essa conta é o consumidor. Neste artigo, vamos colocar uma lupa sobre uma dessas formas de desperdício: aquela que acontece silenciosamente entre o produtor e a prateleira.
O desperdício começa antes da prateleira
Quando pensamos em desperdício de alimentos, é comum imaginar produtos vencidos nas gôndolas dos supermercados ou alimentos descartados dentro de casa. No entanto, boa parte desse desperdício acontece muito antes disso.
Segundo o Pacto Contra a Fome, cerca de 19,5% das perdas de alimentos no Brasil ocorrem na etapa de pós-colheita, armazenamento e transporte, antes mesmo de os produtos chegarem ao varejo. Em muitos casos, alimentos que estavam perfeitamente próprios para o consumo acabam perdendo qualidade ou sendo descartados simplesmente porque a logística não conseguiu preservar suas condições ideais.
Em uma cadeia de abastecimento cada vez mais longa e exigente, esse desperdício deixou de ser apenas um problema operacional. Hoje, ele representa custos adicionais para produtores, transportadores, distribuidores, supermercados e, inevitavelmente, para o consumidor final.
O verdadeiro custo de uma carga perdida
Quando uma carga de frutas, verduras, carnes ou laticínios sofre perdas durante o transporte, o prejuízo vai muito além do valor do alimento descartado. Antes mesmo de chegar ao destino, aquela mercadoria já consumiu combustível, mão de obra, embalagens, manutenção da frota, pedágios, tempo de carregamento e os custos financeiros da operação.
Ou seja, não é apenas o produto que deixa de ser vendido. Todo o investimento realizado para colocá-lo na estrada também é perdido.
Por isso, muitos especialistas consideram que as falhas na cadeia do frio são, antes de tudo, um problema econômico. A temperatura inadequada apenas acelera um prejuízo que já estava sendo construído ao longo de toda a operação logística.
O transporte faz diferença maior do que parece
Nem todo alimento exige refrigeração. Mas, para diversos produtos perecíveis, controlar a temperatura durante o transporte é fundamental para preservar qualidade e reduzir perdas.
Um levantamento publicado pela Hortifruti Brasil mostra que produtores relataram perdas entre 15% e 20% quando frutas foram transportadas sem refrigeração adequada. Quando o transporte ocorreu em veículos refrigerados, essas perdas caíram para aproximadamente 3%.
Em operações recorrentes, reduzir alguns pontos percentuais de desperdício pode representar dezenas de milhares de reais preservados ao longo do ano.
Além do valor recuperado, há um ganho menos visível e igualmente importante: maior previsibilidade para produtores, distribuidores e varejistas planejarem suas operações.
Por que esse desafio é ainda maior no Nordeste?
O Nordeste reúne características que tornam a logística de produtos perecíveis particularmente desafiadora. As temperaturas permanecem elevadas durante praticamente todo o ano, as distâncias entre polos produtores e centros consumidores são grandes, a necessidade de distribuição regional cresce a cada ano e parte dos trechos rodoviários ainda apresenta limitações de infraestrutura.
Segundo levantamento da CNT, mais de 70% da malha rodoviária pavimentada da região apresenta algum tipo de deficiência, seja no pavimento, na sinalização ou na geometria das vias.
Cada atraso provocado por essas condições aumenta o tempo de exposição da carga, eleva custos operacionais e reduz a margem para erros na conservação dos alimentos.
A cadeia do frio deixou de ser um diferencial
Durante muitos anos, o transporte refrigerado foi visto como uma necessidade apenas para alguns segmentos específicos. Hoje, esse cenário mudou. O crescimento dos supermercados, atacadistas, centros de distribuição, redes de farmácias, food service e do comércio eletrônico aumentou a necessidade de transportar produtos sensíveis com maior previsibilidade e controle.
Mais do que cumprir exigências sanitárias, manter a cadeia do frio significa entregar produtos com maior qualidade, reduzir devoluções, diminuir desperdícios e proteger a rentabilidade da operação. Em outras palavras, investir na conservação da carga não significa apenas preservar alimentos. Significa preservar receita.
Quando logística deixa de ser custo e passa a ser investimento
Empresas que conseguem reduzir perdas ao longo do transporte tendem a ganhar competitividade em diferentes frentes. Aumentam o aproveitamento da carga, reduzem devoluções e descartes, melhoram a qualidade percebida pelos clientes, ampliam o alcance das operações e passam a atender mercados que exigem controle rigoroso de temperatura.
É nesse contexto que implementos destinados ao transporte refrigerado ganham relevância. Mais do que equipamentos, eles passam a fazer parte de uma estratégia para reduzir perdas e tornar a operação logística mais eficiente.
Para empresas que atuam com alimentos perecíveis, investir em soluções adequadas para transporte não representa apenas uma melhoria técnica. Em muitos casos, significa recuperar uma parte do faturamento que antes literalmente ficava pelo caminho.
Por fim
No fim, a cadeia do frio não existe apenas para conservar alimentos. Ela existe para conservar valor. Cada carga preservada significa menos desperdício, mais eficiência e uma operação mais competitiva.
Talvez essa seja a principal lição deste artigo. Assim como minha avó enxergava valor em um simples parafuso, empresas que aprendem a reduzir pequenas perdas colhem grandes resultados. Porque, no fim das contas, é de detalhe em detalhe que se constrói um negócio sólido.
Fontes: Pacto Contra a Fome, Hortifruti Brasil e Confederação Nacional do Transporte (CNT).
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Daniel Lima
Diretor Comercial • Carropel
Há mais de 40 anos, a Carropel trabalha para oferecer soluções em implementos rodoviários com qualidade, inovação e compromisso com seus clientes, contribuindo para decisões mais seguras e resultados consistentes em diversos segmentos do mercado.

